
Na manhã do dia da vacina, a Pigúiça acordou com a barriga cheia de borboletas. Daquelas que não voam, só ficam rodando e rodando.
“Hoje a gente vai ao Doutor Bigode”, disse Fofuxo. “Só para ver se você está crescendo direitinho.”
“Eu estou crescendo ótimo!”, disse a Pigúiça. “Não precisa ver. Eu acredito.” E se escondeu atrás de uma samambaia, que não escondia nem metade do rabo. Fofuxo não riu. Sentou ao lado dela e esperou um pouquinho.
“Ter medo é normal”, disse ele. “Eu também já tive.” “Você?”, perguntou a Pigúiça, espiando por entre as folhas. “Eu. Achava que o consultório era um lugar cheio de coisas esquisitas. Mas é só um lugar onde cuidam da gente.”
A Pigúiça respirou fundo, saiu da samambaia e foi andando bem coladinha no pelo dourado do amigo.
O consultório do Doutor Bigode ficava dentro de uma biblioteca redonda, com estantes em arcos e livros com asas voando pelo teto. O doutor era um schnauzer de óculos redondos e de um bigode branco que mexia quando ele falava.
“Bom dia, Pigúiça! Antes de tudo, vou te mostrar cada coisa.” Ele mostrou a lanterninha que espia dentro da orelha. Mostrou o escutador, que ouve o coração. A Pigúiça escutou o coração do Fofuxo: tum, tum, tum. Era o som mais calmo do mundo.
“E agora a vacina”, disse o doutor. “É uma espetadinha rápida, do tamanho de um espirro. Quer um truque? Olhe para aquele livro brilhante no chão e conte quantos livros estão voando.”
A Pigúiça olhou. O livro aberto brilhava feito um pedacinho de lua. Ela começou a contar. “Um, dois, três...” Fofuxo segurou a patinha dela. “Quatro!”, disse a Pigúiça. “Doutor, são quatro livros com asas!”
“Muito bem”, disse o Doutor Bigode. “E já terminei.” “Já?” “Já.” A Pigúiça ficou de boca aberta. Tinha sentido só um pouquinho, um espirro de leve, e pronto. “Só isso?”
“Só isso. Você foi muito corajosa. Coragem não é não ter medo, Pigúiça. É ter medo e ir mesmo assim.”
Ela ganhou um adesivo de estrela brilhante, para colar na patinha. No caminho de volta, mostrou o adesivo para as nuvens, e as nuvens sorriram.
À noite, na caminha, a Pigúiça pensou no dia. As borboletas da barriga tinham ido embora, uma por uma. Ficou só um quentinho gostoso.
“Enquanto você dorme”, cochichou Fofuxo, “a vacina aprende a proteger você.”
A Pigúiça olhou a estrela brilhando na patinha. Tum, tum, tum, fazia o coração dela, bem devagar. E, com esse som calminho, ela adormeceu.
