
“Amanhã é a minha vez”, sussurrou a Pigúiça, e a voz saiu tão pequenininha que o Fofuxo precisou chegar a orelha mais perto.
Toda sexta, os filhotes de Dogavios se sentavam em roda debaixo da Árvore Universal para contar uma coisa de que gostavam. A Bolota tinha falado da torta de amora. O Tico tinha falado do esconderijo dele. A Nina tinha cantado uma música inteira. Agora era a vez da Pigúiça.
Ela já sabia o que ia contar: a pedrinha que achou no riacho, que cantava uma nota só. Mas, toda vez que imaginava a roda inteira olhando, a barriga dava uma pirueta e a voz fugia.
“O que acontece quando você pensa na roda?”, perguntou o Fofuxo. “Meus olhos viram dois pratos”, ela disse. “A boca fica seca. E a voz vai se esconder.”
O Fofuxo sorriu, com os olhos bem dourados, calminhos. “Então vamos cuidar da voz. Primeiro, a respiração. Encha a barriga de ar, como um balão. Agora solte devagar, como quem sopra uma pena para ela não cair.”
A Pigúiça fez. Uma vez, duas, três. A pena dela voou bem longe. “E outra coisa”, ele continuou. “Você não precisa olhar para todo mundo. Escolhe um amigo só e conta para ele. Os outros escutam de carona.”
No dia seguinte, a roda se formou debaixo da árvore, e as folhas lá em cima balançavam como quem dá boas-vindas. A Pigúiça foi até o meio, com a pedrinha na pata. Quando abriu a boca... nada. Só silêncio. A voz tinha se escondido de verdade.
Ela olhou em volta, quase saindo correndo. Então viu o Fofuxo, sentado no fim da roda, com os olhos dourados. Ele piscou devagarinho. Ela encheu a barriga de ar. Soltou, como uma pena.
“Eu achei uma pedra”, disse, só para ele. A voz saiu fininha, mas saiu. “Ela canta uma nota só.” “Mais alto!”, pediu o Tico, sem maldade nenhuma. Ela respirou de novo e repetiu, um pouquinho mais forte.
Então ela mostrou a pedra. Soprou de leve em cima, e a pedra cantou: “láááá”. Todos ficaram de boca aberta. “Posso segurar?”, pediu a Bolota. A pedra passou de pata em pata, e cada um fazia “lá” junto, até a roda inteira virar uma música baixinha.
Quando acabou, uma folha da Árvore Universal caiu bem na frente da Pigúiça, como um aplauso. Ela tinha contado tudo, do começo ao fim, mesmo com a voz tremendo no início.
“Minha voz tremeu”, ela disse ao Fofuxo, na volta. “Tremeu, mas continuou”, ele respondeu. “Coragem é isso: falar com a voz tremendo.”
À noite, a Pigúiça deixou a pedrinha na janela. De vez em quando, o vento passava e a pedra cantava o seu “lá”, bem de leve. A Pigúiça sorriu, de olhos fechados, e a nota foi ficando longe, longe, até virar sono.
